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Um conto sobre a crueldade animal

Sumário

Eu tinha uns 10 anos e estava passando as férias na fazenda de um tio no interior de Minas Gerais. Eu estava encantada com uma ninhada de porquinhos que haviam nascido poucas semanas antes da minha chegada. Um deles, no entanto, tinha nascido com um problema na patinha e era manco. Mesmo assim, se esforçava muito para acompanhar os irmãos que viviam atrás da mãe por todo cercado onde eles ficavam. Em uma manhã, o meu tio ofereceu um pote de doce de leite para quem conseguisse pegar o danado do porquinho. Eu, que já estava incomodada com o porquinho mancando, fiquei toda feliz em pegar o bichinho e entregar para o meu tio para que ele pudesse cuidar da patinha do bichinho. A mãe do porquinho estava desesperada, os irmãos todos gritando mas eu segui firme no meu propósito e entreguei o porquinho para o meu tio, de olho no pote de doce de leite, obviamente.  Enfim, porquinho capturado e entregue ao meu tio. Ele pegou o bichinho na mão, colocou em cima de uma mesa grande e meteu-lhe o facão na cabeça. Simples assim. 

Eu não me lembro bem o que aconteceu depois. Ficou tudo meio nebuloso mas me lembro da minha tia indo no quarto, e disse que eu precisava almoçar. Outro trauma: eis que, o pobre animal morto estava estirado em cima da mesa cheio de farofa. Aí eu me lembro. Voltei correndo para o quarto chorando e pedi para me levarem embora. Eu havia sido cúmplice no assassinato de um bichinho indefeso, cor-de-rosa e que bem poderia ser o meu bichinho de estimação. 

Foi nesse dia, acredito eu, que descobri que os animais morrem para que nós possamos comê-los. Mas a morte do porquinho foi rápida e indolor. Pior deve ter sido para os irmãos e a mãe deles, que são animais inteligentes, que sentem, que sofrem, verem um a um sendo mortos e sabendo que aquele seria o seu futuro.

Por: Christina Araújo @christina_.araujo

Ilustração de Steve Cutts

A função do referencial ausente é manter a carne separada de qualquer ideia de que ela era um animal.

Os animais tornam-se ausentes como animais, seres sencientes que, tal como animais humanos, se esforçam para perseverar em seu ser, para que a carne exista. Seres que não existem, em princípio, para serem maltratados e expropriados de seu direito à vida para interesses de outros. Se eles estiverem vivos, não poderão ser “carne vermelha” ou “carne branca” ou todos os nomes inventados para reduzir a vida de outro animal ao paladar humano. Não importa, a crença de que o ser humano é superior e por isso possui poder sobre outras vidas (leia-se especismo, racismo, sexismo…) ensina desde cedo a manter longe da refeição o “múuu” ou o “au au”. 

Não se trata só do assassinato de uma vida. Se trata do confinamento, da tortura, da exploração, do estupro, da crueldade humana para com os outros animais. A forma como vivem e como morrem não é digna. Não concordo que o animal o homem devia ter esse poder sobre a vida dos outros animais com quem deveríamos compartilhar o planeta e não dominar.

A indústria leiteira, a indústria dos ovos e a indústria da carne cometem atrocidades em nome da nossa gula e da ganância.

Na indústria do ovo, a crueldade se equilibra entre matar os pintinhos (seja por asfixia ou triturados vivos) que nascem machos. São descartados porque não têm a menor utilidade para os humanos. Na outra ponta tem o confinamento das galinhas em gaiolas minúsculas. Algumas morrem de exaustão, estresse ou alguma doença, uma vez que não há nenhum acompanhamento veterinário para elas. Recém-nascidas, elas têm o seu bico cortado para que não se bicam ou destruam os ovos. Uma galinha que, naturalmente, viveria por 17 anos, costuma colocar 24 ovos por ano. Na indústria do ovo, sua vida é reduzida a um ano, colocando até 300 ovos por ano.

Na indústria do leite a barbárie continua, começando na inseminação artificial que muitas vezes é feita manualmente. Eu assisti (confesso que não consegui ver até o final) uma única vez e já foi o suficiente para entender que aquilo foi um estuproO segundo ato da crueldade vem logo após o nascimento do bezerro que é imediatamente separado da mãe. Aí começa a tortura para ambos: o bezerro é confinado em casinhas ou cercadinhos minúsculos para que não possam caminhar nem correr. São alimentados artificialmente e com muita medicação crescem por no máximo 6 meses e são abatidos. 

Todo esse ritual perverso é para garantir sua carne de vitela macia. A vaca é confinada, alimentada com rações fabricadas com soja geneticamente modificada, hormônios, antibióticos (por conta do grande período de tempo  que são ordenhadas diariamente, as tetas estão sempre inflamadas), mas, o matinho verde que é bom, elas só avistam de longe. Sua vida é reduzida a quatro anos, passando por essa tortura diária, quando são abatidas porque perdem a utilidade: acabou o leite.

Porque comer porco e não comer gato?

Qual o sentido em aceitar a tortura de uns e proteger outros? Porque os cachorros são dignos de viverem mas comemos peixes crus sem problema algum? 

Acredito no respeito entre seres vivos de qualquer espécie. Eu, hoje, não me sinto no direito de capturar, confinar, torturar, matar e esquartejar uma vida e oferecer às pessoas que amo para se alimentarem desse sofrimento.  

Em condições iguais ou piores a indústria do alimento à base de animais e seus derivados, temos também a indústria dos cosméticos, farmacêutica, têxtil e até a “indústria do carnaval” com suas plumas e penas arrancadas cruelmente das pobres aves.

Animais são testados em laboratórios durante anos para fabricação desde medicamentos a tintura de cabelo. Eles são drogados, queimados, eletrocutados, expostos a fumaças tóxicas e tantas outras crueldades que o ser humano historicamente acredita ter o direito de exercer em prol da medicina, vaidade, gula, curiosidade e do egoísmo.

Mas a falta de empatia dos humanos em relação aos seus colegas habitantes do planeta é algo que deveria ser estudado. Quando somos expostos a cruel realidade do sofrimento dos animais e continuamos com a barbárie, acredito que precisamos de tanta ajuda quanto eles.

"Se você odeia a violência, não se alimente dela."

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3 thoughts on “Um conto sobre a crueldade animal”

  1. Anderson disse:

    Olá, gostei do artigo.
    Por favor, se puder, passe na minha página também, eu
    deixei o endereço ai no campo site.
    Eu estou precisando de uma força.
    Abraço.

  2. Freitas disse:

    Nossa! Gostei do li aqui. Mas queria saber mais. Como ? Já
    estou te seguindo 🙂

  3. Chris disse:

    Vocês estão de parabéns!!!
    Orgulho de ver a geração de vocês fazendo o que a nossa não fez pelos animais, pela Terra e o próximo.

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